segunda-feira, 2 de abril de 2012



TEMPO DE LEMBRAR 3




Os Anos de Chumbo e a Verdade de Cada Um








O ano era 1976. Ainda não fazia teatro. Naquele ano eu comecei a escrever contos e a publicar em jornais de Teresina. Mesmo por que tinha ganho um concurso de contos promovido pela Fundação Cultural do Piauí, e publicado no Jornal O Dia, além de levar a bagatela de trezentos contos. Um espanto pra mim! Portanto, minha turma era o pessoal de literatura: contistas e poetas piauienses da geração mimiográfo. Foi naquele ano que minha cabeça começou a mudar em relação a ditadura que tomou conta de nosso país.




Claro, que eu já tinha conhecimento dos desmandos e das atrocidades dos militares, mas é que as coisas chegavam tão lentas e atrasadas no Piauí, que poucos iluminados se davam ao luxo de estar em dias com os últimos acontecimentos. Ainda mais que eu convivia com o pessoal do Cepi-Centro de Estudos e Pesquisas Interdisciplinares, da Fundação Projeto Piauí, criada no governo Alberto Silva, que em plena ditadura investia uma grana preta em pesquisa educacional, música coral, artes plásticas, cultura popular e teatro, coisas que eu adorava. Portanto, era um período em que a cultura piauiense parecia viver num oásis em pleno país que a policia espancava atores, quebrava teatros, proibia músicas e prendia artistas. Por aqui quase não se tinha conhecimento que a ditadura tivesse feito seus estragos na própria classe artistica piauiense.




Minha mudança de rumo veio com os infindaveis papos nos botecos de Teresina, onde poetas, contistas, jornalistas, músicos e atores varavam noites em recitais, bebedeiras, namoros e, principalmente, resistência politica, tudo regado no mais sincero respeito um pelo outro. Onde o coletivismo substituia o individualismo e a luta era pelo bem comum. Criatividade à flor da pele. Longe dos botecos de hoje onde o ego e o individualismo de alguns assassinam e enterram ideias brilhantes de outros.




Veio 1977, e com ele minha entrada no mundo do teatro, quando fiz a estrea de minha primeira peça no Theatro 4 de Setembro, simbolo e orgulho de nossa cultura, que me deu o impulso de nunca mais parar. No ano seguinte, senti as garras da ditadura rondando ao meu lado. Minha segunda peça falava sobre um coronel latifundiário que era morto por um roceiro. Fui chamado na Policia Federal, onde o censor foi direto e grosso: "Pode mudar o final da peça. Um roceiro não pode matar um coronel, ainda mais por questão de terra". Caramba. Mas sem aquele final a peça não existiria. A sentença final do censor:"Então, não apresente a peça". Putz!




A peça era feito pelos atores Lili Martins, Afonso Miguel Aguiar, Lorena Campelo e Ribamar, não falei nada para eles. Na minha cabeça era uma estupidez aquela censura e cabia a mim resolver tudo. Negociei com o censor. No final da peça, faríamos apenas a menção que o coronel iria morrer e, antes que ele caisse, a luz se apagaria. Lindo, não! O censor enguliu, e mandou dois agentes assistir ao ensaio geral. Como o diretor era eu, ssim fizemos. Como raramente eles iam assistir ao espetáculo fizemos o texto do jeito que estava, e o coronel terminava estirado no palco,, morto pelo roceiro. Pura transgressão! Tempos depois essa peça seria assistida por Plinio Marcos, icone da dramaturgia brasileira, no Theatro 4 de Setembro, e quando eu fui apresentado ele me falou que seria melhor eu escrever um romance sobre aquele fato, pois assim eu contaria tudo que estava entrelinhas. Mass eu nunca escrevi romance algum.




Depois, já fregues do Departamento de Ordem da PF, pois fazia liberações de peças e eventos da Federação de Teatro Amador do Piauí, da qual era secretario, comecei a ter pavor e, ao mesmo tempo, ódio da ditadura. Duas ocasiões me marcaram muito naqueles anos. A primeira vez foi quando a Federação promovia o dia internacional do teatro. Distribuimos os convites do evento, feitos pelo querido amigo e ator Lili Martins, quando fui chamado à PF. No final do convite estava escrito uma frase: "Um beijo na bunda". Dessa vez foi de lascar. Um bafafá do caralho. O censor ficou irritado. Que era aquilo? Um beijo na bunda? Que mensagem era aquela? Vamos proibir esse evento, seu Campelo! Passei quase três horas conversando com o homem, e explicando que não tinha nada a ver, que era apenas uma saudação. Saudação com um beijo na bunda! Realmente era dificil de acreditar, mas foi tudo contornado. Mas aconteceu o pior, o Lili, irreverente que era, numa das cenas que fazia no evento em comemoração ao dia do teatro, sabendo que a PF não gostara do convite, arriou as calças e mostrou a bunda pra platéia. Risos gerais! Era o ano de 1980.




A outra vez, foi quando eu vinha do bar Sachas, templo dos artistas de teatro, que ficava ali na Avenida José dos Santos e Silva. Do Sachas só se saia ao amanhecer, Era uma eterna festa. Não sei por que eu cismei de ir embora ainda cedo. Andei pouco fui agarrado por um troglodita e jogado dentro de um fusca. Lá dentro estavam mais dois. Começamos a rodar em Teresina, e as perguntas eram repetitivas, e os tapas no peito eram horríveis, e o queimado no pulso com baganas de cigarros era uma coisa dolorida. Perdi a noção do tempo. Não sabia por onde andavamos nem tinha a minima noção do que queriam. Eu era apenas um rapaz querendo fazer teatro em Teresina. Ali estava a face mais escura dos anos de chumbo, vilipendiar e amedrontar. Me soltaram no centro da cidade quando o dia vinha amanhecendo. Corrir para casa. O pulso queimado e ardendo, chorando de uma raiva interna e de uma impotencia horrorosa. Contei pra minha familia. Muitos amigos do teatro e da literatura foram à minha casa conversar comigo. Ainda andamos por alguns lugares que passei, mas eu não me lembrava de nenhum rosto. A partir dali minha convicção ainda ficou maior de que deveria continuar no meu oficio de teatro.




E assim faço até hoje. Ano em que completarei, no mês de novembro, 35 anos de teatro. Vai ser uma festa!




quinta-feira, 23 de fevereiro de 2012

Teresina, De carnaval, Ganhos e Cinzas.

2012 vai ser o ano marco do carnaval de Teresina, afinal de contas o nosso corso carnavalesco é o maior do mundo, segundo o Guiness Book, o livro dos recordes, mesmo que esse recorde pertença a nós próprios, por que o nosso corso da forma que é realizado é o ùnico no mundo. Enfim, temos alguma coisa só nossa, e no ano que vem vamos quebrar nosso próprio recorde! Mas vamos falar dos rumos que o carnaval de Teresina tomou e que vamos ter de conviver daqui pra frente.

Lembro que em 1997, foi realizado pela Fundação Mons. Chaves o Seminário: Reviver Carnaval-Rumos e Identidade do Carnaval de Teresina, com a participação de Cecilia Mendes, Paulo Vasconcelos. Bernardo Sá, Galba Coelho, Marcos Peixoto, Manoel Messias, Osvaldo Almeida, Daniel Aracacy, Jamil Said, Bosco e nossa participação, com uma platéia excelente. Estavamos em busca de retomar o carnaval de Teresina, e ali foi feito um dos melhores diagnóstico sobre nossa festa momesca. Depoimentos sinceros e apaixonados. Como surgiu nosso carnaval, qual sua contribuição e de como ele poderia ser. O Seminário serviu para traçar extratégias.

O carnaval de Teresina nunca teve uma identidade. Nossas escolas de samba foram criadas no rastro das escolas de samba do Rio de Janeiro, inclusive, importando luxuosas fantasias daquele estado para os desfiles daqui. Até mesmo o caminhão das raparigas, criado pelas mãos das prostitutas da antiga Paisandú, era mais um protesto, um grito de revolta por não poderem participar de bailes chiques da cidade. Transformado em corso, saiam pelas ruas de Teresina, depois foi substituido pelos blocos e pelas escolas de samba, também uma invenção do Rio de Janeiro, ainda nos anos de 1930. Lembramos que o corso, também, é uma festa excludente por que só participa diretamente quem tem carro ou quem pode alugar um caminhão.

Sem nunca ter encontrado sua identidade ou vocação, o carnaval de Teresina vive de momentos, nascendo e morrendo. Nem mesmo os sambas enredos das escolas conseguiram contar nossa história. Mas elas tinham uma tradição, afinal de contas desde a Escravos do Samba, nossa primeira escola, criada em 1952, já se vão mais de 60 anos. E acabar com o desfile das escolas usando argumento de que o povo não gosta é uma tremenda bobagem. Nem se discute, é estatisco, a maioria gosta. O que deveria ser discutido era o compromisso do Municipio e do Estado com o carnaval de sua capital, seu rumo, apoio e ganhos. Até que o municipio tem tentado, agora o Estado sempre foi omisso, como se a capital não existisse. Mas isso é o reflexo da maioria de nossa elite que vê a cidade de cima, por que elas não gostam da cidade, nem da cultura da cidade e nem do carnaval da cidade. Então, que se lixe. Mas tem, também o outro lado. E se as escolas de samba foram pras cucuias cabe responsabilidades de seus dirigentes que sempre agiram com amadorismo, com grandes egos e com brigas internas por migalhas de poder. Junte-se a isso, parte da imprensa, via colunas de jornais e midias eletronicas , que fazem tudo para denegrir a imagem do carnaval da cidade. As escolas de samba não desapareceram apenas por falta de apoio financeiro, mesmo por que é vergonhoso sair por outros estados dizendo que a prefeitura de Teresina se nega a destinar miseros 50 mil para cada escola, enquanto por lá briga-se por milhões. Pobreza nossa, não, é falta de grandeza mesmo, como se dinheiro destinado as escolas fosse salvar nossas mazelas e pobrezas seculares. Aliás, esse espirito parti das elites no poder que não amam sua cidade.

Daquele Seminário de 1997, foi recriado o corso carnavalesco em 1998, com o caminhão das raparigas representado por atrizes piauienses e um caminhão de apoio com convidados especiais. O corso cresceu e se transformou no que conhecemos hoje e as escolas de samba passaram a ter apoio oficial naquele ano, saindo do desfile realizado na Av. Frei Serafim para a Avenidade Marechal Castelo Branco.

O municipio de Teresina, via Fundação Monsenhor Chaves e Semel, por mais esforço que faça não tem conseguido se sobrepor aos atropelos e desencontros. Continua sempre com o mesmo nhem,nhem,nhem, cuidando apenas de reis e rainhas do carnaval, sem dimensionar o poder do povo da cidade, sua criatividade e seu entusiasmo. O corso foi um exemplo, quando o poder público perdeu as estribeiras e deixou a coisa rolar solta: foram dezenas de caminhões perdidos pela cidade, carteiradas de espertalhões em cima de guardinhas de transito e o povo olhando o nada, como se nada tivesse controle, ainda bem que o povo convocado e comparecido ao local suportaram cordeiramente aquilo tudo. Foi tudo lindo para lentes e cameras!

Ganhos para a realização do concurso de marchinhas de carnaval; para as previas de blocos, para a festa dos artistas, galo da madrugada, sanatório geral e para a promoção do carnaval por alguns bares de Teresina com artistas locais. Quanto aos desfiles dos blocos de sujos, a mesma desorganização no local, quando os que estavam ali invadiam a passarela e se misturavam aos participantes dos blocos e, pasmem, nem a banda de axé que tocava parava para se escutar os enredos dos blocos. Aliás, vamos encerrar com as tais Bandas. Muitos dirão é aquilo ali, pronto. Que maravilha, encontramos a identidade de nosso carnaval! Mas eu direi, pronto acabamos com o que restava de nossa esperança em encontrar algum resquicio de nosso poder de transformação pela nossa cultura. Pois a juventude bela e linda que dançava na Marechal Castelo Branco, com certeza, vai dizer que carnaval é aquilo ali. Afinal de contas, é um retrato de quem não conhece suas caracteristicas e sua vocação. No ritmo Bahiano chegamos lá. Axé, minha gente!

quinta-feira, 19 de janeiro de 2012

TEMPO DE LEBRAR
2
Anos 70, A Turma e os Apelidos.




Nos anos de 1970 quase todos os amigos tinham apelidos, ou codinomes, o meu era BD, e só os mais intimos sabiam o que siginificava. Tinha o Fuinha, o Sargento, o Til, o Lento, o Billy, o Maca e o Jota, este era o meu melhor amigo. Alguns apelidos eram inventados por mim e o Jota e os apelidados nem precisavam saber por que ficava entre nós mesmos. Nós curtiamos pra carabam inventar os codinomes. Foi com o Jota que vivi bons anos da minha juventude, onde tudo era descoberto de forma fantástica e compartilhado nos minimos detalhes. Aquilo que não sabiamos iamos atrás com uma curiosidade infernal. Algumas vezes nos davamos mal, mas nunca nos arrependiamos do que tinhamos feito. Apenas partiamos para outra.

No ano de 1973 eu estudava no Colégio Helvidio Nunes, onde a farda chamava atenção pelas cores fortes, a calça caqui e a camisa de um amarelo intenso que, também, ganhou o apelido de picolé de abóbora. Eu ia sempre impecavel para o colégio, desde o kichutte limpinho até a camisa super gomada. E me comportava como um verdadeiro estudante, e era mesmo, apesar dos amigos não acreditarem. Isso por que nos finais de semana meu comportamento era totalmente diferente, bebia toneladas de uisque Royal label, que era nossa cachaça e varava as noites atrás de festinhas e de cabarés. Jota se deliciava com aquilo. Olhando para a minha cara ninguém era capaz de acreditar no que eu seria capaz de fazer. Minha reputação no Colégio era muito grande, comportamento exemplar. Coisa de ser escolhido para pelotão da parada de sete de setembro. Uma parada dura. Sete de setembro naqueles tempos não era brincadeira, era coisa de patriotismo verde amarelo ditatorial. Faltar aquilo significava castigo certo. Se bem que o castigo era ensaiar a marcha dias e dias, e ainda por cima não poder beber vespera de feriado. Mas tinha muito estudante que adorava e sentia orgulho em ser pelotão. Jota não aguentava me ver marchando. Minha reputação como estudante ginasial foi além, pois fui convidado para ser vice-presidente do grêmio escolar. Eu mesmo não entendi porque. Quem me convidou para aquilo foi um dos meus melhores amigos, esse sim, popularissimo no Colégio, o Raimundinho Santana, para nós o Til, um cara fantástico acima do bem e do mal. Lembro de ter sido chamado na ddiretoria pelo professor Agnaldo Camilo que conversou comigo e confirmou minha participação na chapa do grêmio. Afinal de contas nada podia fugir ao controle da direção. Passei a ser importante. Foi muito interessante aquela experiência, que contarei mais adiante.

Jota era uma figuração, um cara muito loouco, como de resto eram todos os jovens interessantes daqueles anos. Não estava nem aí para estrutura nenhuma, mas era um verdadeiro amigo, divertido e sincero. Além de beber muito, o que não era novidade, tomava anfetaminas aos quilos. Como ele era gerente de fármacia ficava fácil. -"Olha, aí BD, uns optalidons." Eu recusava, por que detestava comprimidos desde pequeno quando mamãe me enchia deles para me curar de asma. Mas eu garantia suas loucuras no Colégio quando ele ia dopado por que tomava seis comprimidos de um tapa só. Ele adorava revistas em quadrinhos e disco de rock. Na sala de aula ficava viajando nos quadrinhos e, vez em quando, soltava uma gargalhada que ninguém entendia nada, só eu. Jota era galante e paquerador, e vivia me botando pra cima das meninas. E fazia isso, mesmo sabendo que eu era namorado da irmã dele. Dizia que as meninas gostavam de mim, e que ele arranjava namoradas por que era meu amigo. Mas eu não estava muito aí para as meninas,não. Achava muita dificuldade namorar, para mim era um saco aguentar um namoro. Mas a turma aproveitava, namorava pra caralho. Um dia apareceu a Aninha, transferida do turno da manhã. Aninha era bonita, sorridente e despachada. A turma se deu bem com ela. Me apaixonei por Aninha. E Jota lascou: - "Pô, BD, todo mundo já passou a mão na Aninha, cara!". E os outros quando me viram de mãos dadas com Aninha não acreditaram. Caramba, esse cara é abestado. Pois é, eu quero é ela mesmo Jota, e pronto. Achava Aninha linda, de pele cheirosa. Foi ela quem me ensinou a beijar de lingua. Mas era só eu virar as costas que Aninha se agarrava em outro. Um dia à noite, quando o Colégio realizava um festival de quadrilhas Jota me pegou com Aninha, não sei por que eu já estava com a saia dela na mão. Quando sair de onde estava Jota partiu pra mim; -"Pô, BD, mas tu não faz assim com minha irmã não, faz?" Não, faço não. E não fazia mesmo. Namorei Aninha muito tempo até perdê-la de vista.

O Royal Label que bebiamos já não era o suficiente. Jota estava cada vez mais louco com suas anfetaminas. Ficavamos horas e horas ouvindo rock em sua casa: Rolling Stone, The Who, Santana, Alice Cooper e os cantores country americanos, como Willie Nelson, Jonh Cash, Cat Stevens e Bob Dylan, claro. E tome uisque e pilulas. Willie Nelson era um cantor machonheiro, segundo sua biografia, que faziamos questão de ler, não só a dele mas de todos os outros cantores e conjuntos que nos curtiamos. Então, um dia Jota cismou em fumar maconha. "Topa, BD, fumar maconha?". Topo.

Não foi dificil encontrar a erva que naquele período tinha o apelido de baseado. No fundo já sabiamos a quem procurar, o dificil era pedir. No entanto, nem foi dificil assim. Quem nós deu o primeiro baseado foi um amigo do peito, que vivia enfurnado em seu quarto com seu violão, arrodeado de discos. Nem é preciso dizer que tinha sido ele o responsável pelo nosso gosto musical. Vivia curtindo, além daqueles conjuntos e cantores acima, The Doors, Pink Floid, Emerson, Lake e Palmer, Jimmy Hendrix, The Beatles e a voz gutural de Janis Joplin. No quanto dele tinha um retrato de Jim Morrison, o lider pirado do The Doors, que tinha morrido de overdose. Esse nosso amigo era o Maca. "Pois é, BD, é tu quem vai pedir maconha ao Maca, sacou? Tu tem mais moral". Tenho, caramba! E assim eu fui. Ganhamos dois baseados. O Maca era um pouco mais velho que nós e morava no bairro Marques, na Vila dos Militares. Ele barbariza nas barbas do exército. Tudo normal, irmão, dizia ele. Lembro que era um dia de sabado, e depois de ouvirmos uma sessão de rock na casa do Maca fomos para a casa do Jota. Estavamos ansiosos, afinal de contas era a primeira vez que iriamos fumar maconha. Foi uma curtição ao som de Bob Dylan "Blow in the Wind", e dos Rolling Stones "Angie", sem falar dos Jackson Five, antes de Michael Jackson virar pop star. Depois fomos jogar futebol nas quadras do 25 BC. Sempre faziamos isso. Naquele dia nada nos metia medo, e Jota bolava de rir na quadra mesmo quando levava uma bicuda no meio da canela, deixando os caras sem entender nada.

No ano de 1976, Jota se mudou com toda sua familia para São Paulo. Perdi um grande amigo, mas já sabia me virar sozinho.

quarta-feira, 16 de novembro de 2011

TEMPO DE LEMBRAR.

I

NO SOPRAR DO VENTO.



A primeira vez que ouvir a canção "Blow in The Wind", de Bob Dylan, foi em um posto de gasolina no interior do Estado do Maranhão. O ano era 1965 e o tempo era de um inverno de matar sapo em lagoa. Eu, minha mãe e minha irmã menor, fazíamos a viagem de volta para o estado do Piauí, fugindo da revolução de 1964, que caçou, por corrupção o mandato de meu, que era vereador da cidade de Altamira daquele estado. O posto de gasolina ficava à beira de uma estrada carroçal que há muito tinha se transformado numa buraqueira de barro e lama vermelha. De limpo por ali só a bomba da Texaco, coberta por um teto de zinco que brilhava ao sol desafiando os olhos das pessoas. Aquela bomba, deixava restos de gasolina e oleo diesel encharcando o chão, de onde exalava um cheiro forte que se misturava ao fedor do próprio local.

Tinhamos chegado na carroceria de um caminhão entupido até as nuvens com sacos de algodão. Além dos sacos de algodão, vinham uns engradados cheios de galinhas e patos, que cacarejavam o tempo todo,como prenuncio de desgraças, toda vez que o caminhão dava solavancos. Como aqueles engradados, para não cairmos da carroceria, minha mãe tinha amarrado uma corda em torno de mim e de minha irmã. E, assim, pudemos fazer aquela travessia de três dias de viagem até chegar naquele lugar, uma especie de entrocamento, por onde passavam muitos carros. Era ali que ìamos pegar um deles para vir para Teresina. Na viagem até ali, além de enfrentar o inverno com ventos e chuvas tempestuosas batendo no rosto de cada um de nós e encharcando nossas roupas, o fantasma da fome deixava eu e minha irmã menor paralisados.

Olhar para aquelas galinhas de cristas caídas e olhos assustados era o ùnico passatempo que me fazia esquecer do perigo da viagem. Aqueles animais enjaulados e inofensivos eram como nós, sem saber qual o destino que nos podia reservar. Pela minha imaginação passava, como um filme em preto e branco, a reconstituição dos nossos últimos momentos na cidade de Altamira. A saída da casa de onde moravamos, onde passei os melhores anos de minha infancia, num tropa de seis burros e o povo curioso, à porta de nossa casa, vendo a partida da familia, sem entender o por que de tudo aquilo; A ausência de meu pai, que tinha fugido para não ser preso pelo exercito, e o tropeiro que ele contratara para nos levar até o embarque na caminhão que nos levaria para aquele entrocamento; Os olhares de todas aquelas pessoas e o silencio de cada um que só era quebrado pelo soluço de minha mãe que teimava em não se esconder; Aquele tropeiro, que era mudo como seus próprios burros, mas que eu nunca esqueceria sua energia e a sua firmeza na condução da tropa. Lembro de não ter escutado a voz daquele homem uma ùnica vez, mas não deixara de sentir total segurança na viagem em cima daqueles burros. Aquele silencio era muito diferente do silencio do motorista do caminhão, um tipo frágil e esquisito, que parecia estar atrás de ajuda.

Quando o caminhão parou naquele posto, minha mãe desceu da boléia e fez o motorista subir até o alto da carrada de algodão para descer eu e minha irmã. Em terra firme, o homem despejou nossos pertences composto de um monte de malas, sacos e trouxas. Ao lado daquele monte de coisas, na beira daquela estrada e perto do posto de gasolina, ficamos à espera de outra condução que pudesse nos tirar dali.

O caminhão e seu motorista taciturno seguirm viagem, e minha mãe tratou de arranjar alguma coisa para comermos. Foi naquele espaço de tempo, enquanto esperva por comida e tomava de conta das coisas e de minha irmã, vendo aquele movimento de pneus, apitos e um bando de gente estranha, que aquela música invadiu meus ouvidos e contagiou minha mente. Mesmo com o fim daquela música ela parecia se repetir infinitamente dentro de meus ouvidos, e eu só fui despertado quando minha mãe chegou e nos levou para um quiosque perto dali.

Nunca mais me sairia da lembrança aquela viagem e aquele silencio de morte em cima da carroceria daquele caminhão, eu com olhos pregados na estrada que se perdia no horizonte,como uma linha sinuosa que parecia não ter fim. Como aquela estrada, a voz daquele cantor que chegou aos meus ouvidos naquele posto de gasolina, vinda de não me lembro de onde, nunca mais sairia da minha cabeça. Uma voz estranha, que parecia arranhar a garganta de quem cantava, e que penetrou meu corpo frágil, e que parecia me fazer flutuar e entender tudo o que ele dizia, e me fazer alegre por dentro e esquecer das coisas ruins daquele momento.

Doze anos depois daquela viagem eu sabia tudo, ou procurava saber de quase tudo sobre Bob Dylan, sua vida e sua obra e, principalmente, sobre "Blow In The Wind", que se tornaria um hino de uma geração de pessoas no mundo inteiro. Para mim tudo o que ele fazia era o máximo, e eu não cansava de demonstrar isso para os amigos, é tanto que meu apelido, entre os mais intimos era B.D.

sábado, 21 de maio de 2011

AQUI É O FIM O MUNDO OU LÁ





Quem somos? De onde viemos? Qual o nosso destino? Agora sempre que cutucados na sua auto-estima o piauiense abre uma guerra contra o inimigo. Aprendeu a não suportar mais o deboche, as piadas de mau gosto, a não existência do Estado no mapa do país. Encara-se de frente quem tiver o topete de falar mal ou opinar sobre a condição do Estado. E tome cacete, não venha não que o Piauí é grande, é o maior, é o tal, bom em tudo! Teresina, a capital, é cosmopolita, globalizada, não está nem aí para a tradição. E tome o patrimônio cultural no chão. Para que identidade? Somos cidadãos do mundo! E se não temos sotaque não precisamos de raízes.


É em nossa história que vamos buscar entender tamanha mania de perseguição que nos aflige atualmente. Não digerimos, ainda, quem somos, portanto, menos ainda de onde viemos, também, não é para menos: simplesmente não nos conhecemos. Patinamos entre o desconhecido e o faz de conta de nossa história, que precisaria ser totalmente revisada. Mas quem teria coragem de fazer? Talvez seja melhor viver na mentira, e revidar tudo que venha contra o que pensamos ser. Em primeiro lugar, não temos uma data de Independência política, temos três: 24 de janeiro, em Oeiras; 19 de outubro em Parnaíba e, agora, 13 de março, em Campo Maior. Tudo escrito lá, na bandeira e no escudo do Piauí. Aliás, no escudo está 24 de janeiro, como data máxima da Independência do Estado, mas o dia do Piauí é comemorado em 19 de outubro. Como é que fica a educação das nossas crianças? Se ainda hoje se discute qual a data da independência do Estado, como podemos saber quem somos? Interessa buscar uma identidade piauiense?


Teresina, por exemplo, é uma jangada de pedra vagando entre dois rios em busca de um porto seguro. Foi uma cidade projetada para ser a capital do Estado, e de onde ela veio, a antiga capital Oeiras, veio o poder político e a burocracia. Depois, de outros municípios, a principio, vieram tudo: Dramas de Quintais; Brincadeiras do Boi Bumbá; Casimiro Coco; Pastorinhas; Tambor de Crioula; Terreiros de Macumba; Corso carnavalesco, futebol e carnaval. Temos a impressão que o desamor que a maioria dos teresinenses tem pela sua cultura, é por que nada parece ter nascido em Teresina. Então, amamos tudo o que vem de fora.. Mas esse desamor por nossas raízes e esse desinteresse em discutir quem somos e de onde viemos e, principalmente, onde queremos chegar , talvez, seja o motivo dessa revolta quando somos atacados por algum desbocado ou algum desavisado que não quer reconhecer nossa imensa grandeza. Mas se essa grandeza está sendo feita até aqui de pura fantasia ou mascarada, será que não se quer enxergar que precisa-se sair da letargia em que o Estado se encontra? Ou simplesmente refutar qualquer ameaça de denegrir a imagem do Estado não será uma forma encontrada para continuar na fantasia? Simplesmente rechaçamos o que não queremos ouvir ou ver. Será?


Se olharmos mais um pouco para trás, antes da fundação de Teresina, lá nos tempos do Piauí Colônia, teremos um retrato não tão fiel de nossa formação social, isso por que nossos historiadores se contradizem. Naquele inicio do século XVIII o Estado era como que um país novo, sem definição territorial e administrativa, onde existiam índios pelas matas e nas beiras dos rios que fervilhava. Chegou a pertencer jurisdicionalmente a Pernambuco, Bahia e Maranhão Então, vieram os desbravadores capitaneados principalmente por Domingos Afonso Mafrense e Domingos Jorge Velho, sem muita diferença entre os dois, sendo o primeiro um potentado dono de imensas terras e o outro um matador de índios e, pasmemos, por isso mesmo o Capitão-Mor-de Conquista do Piauí. Temos aí, então, o embrião de nossa formação. Uma sociedade estruturada sem poder fiscalizador e disciplinador do reino, isso por que as forças políticas mandavam em tudo e não obedeciam ordens de ninguém e , também, por que o reino parecia não estar nem aí para o Piauí. Que a elite militar e política resolvessem eles mesmo seus abacaxis. Existe alguma semelhança com os dias atuais, onde a politicalha local continua a barrar qualquer laço de união em prol do Estado?


A briga pelo poder local era tão grande entre os senhores de terras e de escravos que não obedeciam nem aos governadores nomeados pelo reino, assim foi com João Pereira Caldas, primeiro Governador da Capitania do Piauí que apesar de lutar pela melhoria do Estado, criando órgãos públicos e outras benfeitorias, não gozava de nenhum prestigio das famílias abastardas do Estado. Aliás, esse governador foi quem deu o toque final da expulsam dos Jesuítas das terras do Piauí. A Companhia de Jesus que tinha o prestigio e o poder dado pelo Rei para explorar o Piauí e que, inclusive, não pagavam impostos. As terras do Estado eram só para os do Estado e pronto. Foi ele, também, quem denominou o Piauí de Capitania de São José do Piauí, em homenagem a Dom José I. Mas nem isso o salvou da guilhotina solicitada pelos ricos latifundiários locais.


Famílias como a Castelo Branco e Coelho Rodrigues se entrelaçaram e foram as formadoras dos principais troncos famílias piauienses, como Freitas, Almendra, Gayoso, Rego, e tantas outras. Nem vamos falar no tronco gerado por Manoel de Sousa Martins, o Visconde da Parnaíba, que passou mais de vinte anos mandando e desmandando. Essas famílias se perpetuaram no Estado através de duas vertentes valiosas, poder político e o mando da terra. Como senhores absolutos, quase todos deixaram de herança para seus filhos, netos e bisnetos não só suas riquezas mas, também, o direito de si perpetuar como membros do Estado, fosse na burocracia ou gozando de mandatos eletivos. Foi assim durante décadas e assim permaneceu.


O que nos vemos hoje na política piauiense, responsável por quase tudo que não acontece nesse Estado, é apenas uma repetição triste de um passado não tão distante de nossa formação social e política. Onde a terceira ou quarta geração de políticos herdou um mandato eletivo, seja do pai ou do avô numa verdadeira oligarquia familiar. Essa prática oligárquica tão nefasta e combatida por tantos na política piauiense, foi se refazendo em sucessivas perdas, não pelo esgotamento de seus pares, mas pelos acordos de bastidores e pelos apoios para não perder o poder.


Dessa forma, aqueles grupos nascidos na peleja e no combate político, não foram capazes de ultrapassar as velhas práticas atrasadas, preferindo se aliar ao que existia de mais ultrapassado na política piauiense. E os intelectuais e pensadores piauiense, atrelados quase sempre a uma corrente política ou outra, não foram capazes também de jogar luz sobre o futuro do Estado. E assim, como se não bastasse a existência desses velhos políticos de carreira e seus herdeiros, os novos políticos resolveram eleger suas esposas para mandatos eletivos, criando uma nova casta ou nova forma de manter a hegemonia familiar e, dessa vez, absoluta: agora com mães, filhos e maridos no poder. Como existiam poucos grupos ou quadros de resistência política e estes já chegaram ao poder sem quase ou nenhuma mudança estrutural, o Piauí deslumbra um destino negro em sua existência política e administrativa. Onde parece não vislumbrar-se mais nenhuma esperança de mudança nesse panorama por que todos os cartuchos parecem terem sido gastos, e a perspectiva é a volta de velhas castas ao poder.


Como não sabemos de onde viemos e, muito menos, quem somos fica difícil saber qual o futuro que queremos. O que restam são interrogações e perguntas, que muitas vezes, ficamos com raiva de quem faz por que não temos coragem de fazer e, muito menos, de responder. Então, tome índices alarmantes, como menor renda per capta; maior índice de analfabetos; maior taxa de mortalidade infantil; maior taxa de filhos sem pai, e por aí vai.


Torquato Neto, o nosso genial poeta e compositor , é o autor do titulo desse artigo, quando ele falou em Marginalia II: Aqui é o fim do mundo ou lá. Como ele poderia ter dito: Aqui é o purgatório ou lá. Aqui é o inferno ou lá. Aqui é o cú do mundo ou lá. Não sei responder, alguém saberia?













terça-feira, 1 de fevereiro de 2011

A Charlatanice e o Preço do Obscurantismo.

No inicio do governo, em segundo mandato, os acontecimentos na área cultural transformaram-se em cenas do mais genuíno teatro do absurdo. E aqui não vai nenhuma depreciação contra o teatro. Nada melhor do que "Esperando Godot", a genial peça do dramaturgo Samuel Becket, para tentar explicar tanta indefinição e tanto marasmo. Na peça, personagens esperam por outro que nunca chega, na vida real de artistas e produtores culturais piauienses, espera-se por gestões culturais dignas da classe que nunca chegam. E o que dizer da incomunicabilidade do teatro de Eugene Ionesco? É assim, também, entre o governo e a classe artistica: o primeiro tentando desconhecer a existência da segunda, num total descompasso com a realidade. Mas o problema maior não está em conhecer ou desconhecer, existir ou não existir, o problema está em desvalorizar e espezinhar propositadamente.
De inicio, houve a mobilização da classe através do Forum de Música e do Conselho Estadual de Cultura por que se espalhou que a Fundação Cultural do Piauí ia deixar de existir ou se fundir com outro. Iss seria a contramão da história. Inclusive, o rcclame geral dos artistas era para que o governo criasse a Secretaria de Estad da Cultura. Impossivel querer acabar com o único orgão oficial de cultura na esfera estadual quando todos os esforços do goerno federal são exatamente ao contrário, estruturar o Sistema Nacional de Cultura, via União, Estados e Municipios. Tudo bem, a Fundação continua. A questão não está em acabar com um orgão por que seu gestor foi inepto e inoperante. A questão é mais profunda e podemos sentir isso pelo desprezo com que o Estado trata a cultura, esquecendo que esa área é uma das mai importantes geradora de emprego e renda de nosso pais e que a economia da cultura pontua em todos os debates. Esse posicionamento, uma herança maldita da velha elite que dominou o Estado, e que via a cultura como adorno e como enfeite, parece continuar até hoje nos bastidores do poder, posição que conseguiu se entranhar no pensamento comun do mais simples mortal piauiense, aquele a quem falta comida e água potavel. Se falta isso, para que cultura e arte.
A nossa percepção em determinado momento é relativa, assim como a realidade, quando se trata de questões èticas, estéticas, lembranças, imaginação, solidariedade, então, perdemos principalmente a capacidade de perceber a realidade e passamos a ser vitimas de nosso próprio destino. O problema, às vezs, é entender ou perceber verdadeiramente o que está por detrás de cada forma, de cada função, de cada medida. Porque tamanho descaso do Estado com a cultura piauiense? Onde está a razão de tudo isso? E aqui colocamos o Estado como um todo, o que engloba os municipios. É preciso perceber as artimanhas, a parte oculta do descaso, a charlatanice para poder entender por que uma área tão importante da sociedade é maltrtada como a área cultural, percebendo também, como colocamos acima, por que a nossa sociedade, um tanto fragilizada por falta de segurança,alimentação, educação e cidadania plena, faz coro numa imitação simplória do poder público na desvalorização de sua cultura e de seus criadores.
Até mesmo no seio da classe artistica, e talvez aí esteja o erro trágico maior, a nossa harmatia, perde-se a firmeza do conjunto e parte-se para a individualidade. Aí, o artista centra fogo em quem não é seu inimigo, e os companheiros, os amigos, os compadres, passam a ser só aqueles que concordam - por que esses tem sempre a capacidade de concordar com tudo - e os que discordam passam a ser inimiugos, jogados no limbo, numa guerra de confronto terrível e numa descontituição do antagonista que beira a sandice, o que só serve para dar continuidade ao total obscurantismo cultural em que o Piauí é jogado, sem contar que a transformação social é zero e os mortos e feridos são muitos para o deleite do poder. Podemos perceber o jogo do poder quando não transformamos nossos própios sentimentos? Ou não queremos perceber esse jogo de dominação a que somos submetidos? O que mais queremos em nosos meio artistico/cultural que não seja a transformação dos sentidos, dos sentimentos e da própria sociedade? Portanto, o confronto da classe contra ela mesma é ainda muito visivel em noso meio. E continua a fazer seus estragos. Veja a escolha da nova presidente da Fundac, onde muitos aplaudiram e tantos outros execraram.
Esse teatro do absurdo em que assistimos a cultura do Estado ser tratada anos após anos dá bem a dimensão do descasoe do obscurantismo em que somos mergulhados. E aqui a relação teatro do absurdo com a nossa realidade cultural ultrapassa ao próprio absurdo da realidade, pois trata-se não criar uma realidade mas de vivenciá-la da forma mais mesquinha possível, onde artistas e produtores enfrentam diariamente um campo de batalha sinistro pela sobrevivencia, tomando calote do Estado, onde não se pagam cachês de apresentações artisticas, não se cumprem contratos e nem convênicos de leis de incentivo, e rir-se ainda da miséria sobrando mortos para todos os lados da cultura, onde gerações de talentos desaparecem antes de aparecer ou então viram zumbis renegados em seu próprio território. E assim sendo seremos e continuaremos a ser um Estado relegado a permanecer no escuro cultural.
É uma vergonha que a cultura e a arte valam cada vez menos em nosso Estado. Gerações de artistas sem ter condições de emergir, por maior esforço que faça, por que participantes, de forma indireta, de um rateio, uma partilha do Estado feita entre grupos de novos ricos, novos companheiros e familias tradicionais que continuam a se perpetuar no poder, fazendo o lado mais turvo da politica. Para que cultura em um Estado que debocha da criação, da inteligencia, do turismo, do lazer e do planejamento? Para que cultura em um Estado que condecora com medalhas de méritos e premia corruptos com cargo público? Claro que não é o Estado que produz cultura e arte, mas cabe ao Estado constitucionalmente propiciar condições e meios de difusão, divulgação e preservação de seus valores culturais.
É apenas um ponto de vista de quem percebe e escolheu o seu campo de atuação. E não se esconde das responsabilidades de uma sociedade carente culturalmente como a nossa. Portanto, na situação em que se encontra a área cultural - com o patrimonio arquitetonico indo ao chão. bibliootecas desatualizadas, casas de cultura pedindo socorro, arquivos púlicos aos pedaços, leis de incentivo que existem mais no papel e uma total falta de visão e de profissionalismo na gestão cultural, não é quem vai exercer o cargo de presidente de orgão oficial de cultura que importa, nem questionar a forma de escolha. Alias, soa estranho como um partido questionou uma escolha que é sua. Já que na partilha dos cargos a cultura foi lhe entregue, nada mais justo que esse partido escolha quem bem entender e arque com a responsabilidade de governar. Só não teráo direito de enlamear o governo que participa com uma má gestão. Repetimos, na atual conjuntura cultural do Piauí, o escolhido para gerir o orgão oficial de cultura bem que poderia ser um carneirinho, um burrinho, umavaquinha ou um macaquinho, com todo respeito aos animais e aos primatas, pouco iria adiantar. Pois não vimos e nem deslumbramos em nenhum momento na esfera do governo a importancia da cultura. Pelo contrario, até parece que ela foi rejeitada.
É só pensarmos na demora em que os gestores públicos de cultura foram alçados aos seus cargos, como se não existisse ninguém preparado para assumir tais funç~es. Onde fica a inteligencia do Estado, pessoa capacitadas e preparadas para exercer qualquer cargo no setor cultural? Com que interesses e objetivos se escolhem gestores de cultura no Piauí? Qual o maquiavelismo por trás disso?Custa acreditar que os objetivos sejam escusos, prefirimos apostar que é para não funcionar mesmo e que a cultura continue de pires na mão. Até compreendemos os éssimos saláris e a doação e a doação que precisa ter quem assume esses cargos, mas isso também foi criado pela própria desvalorização do setor.
Esse retrato cruel da cultura em nosso Estado, podemos exemplificar com o ato de uma promotora pública que acabou com o desfile das escolas de samba de Teresina, usando argumentos fajutos, apagando da memória mais de sessenta anos de tradição. Quem do lado do Estado se posicionou contra? Quem do lado do municipio se posicionou contra? Pelo contrário! Oba, até que enfim acabamos com o carnaval! Uma das mais genuínas tradições culturais, viva! Não parece orquestração? Realmente, vivemos tempos absurdos, e como diria o genial Shakespeare, existe algo de podre no reino da Dinamarca, e nós completariamos, e no reio do Piauí.
O descaso, o obscurantismo e o deboche em que se encontra a área cultural do Estado, deveria ser motivo de indignação. Afinal de contas somos parte de um universo maior. E o que pagamos por isso é imensuravel e irrecuperavel. Temo compromisso com o desenvolvimeno do Estado n concepção mais plena do termo. Então, que o povo da cultura descubra-se, valorize-se e assuma cada vez mais , com responsabilidade e dignidade, a sua verdadeira função no todo do qual é parte - um Estado culturalmente isolado e sumido em um mundo globalizado. Sei que os verdadeiros artistas e produtores culturais já fazem demais, mas que não se cansem e nem se entreguem numa arena de pão e circo, e que façam valer cada vez mais o seu brilhantismo, o seu talento e a sua voz para colocar este Estado onde ele merece, coisa que os politicos e as suas velhas e novas práticas nunca colocaram.

segunda-feira, 20 de setembro de 2010

A Questão do Ator Piauiense

Há muito tempo vem me preocupando a inserção do ator piauiense no mercado de trabalho. Não só como gestor de uma Escola Técnica de Teatro, que trabalha a formação profissional do ator, mas como produtor e diretor teatral tenho levantado essa questão junto a vários artistas de teatro.
Existe ainda uma confusão, de certa forma normal, mas também duradoura em nosso meio, de que não existe mercado de trabalho para o ator piauiense. A pergunta, então, vem de cara? Pra que formar profissionais de teatro? Se esse dilema ainda é forte no meio teatral, imagine fora dele, onde as universidades particulares e as universidades públicas piauienses, sem contar outros seguimentos sociais, fazem questão de desconhecer o nosso teatro. Claro que o mercado de trabalho para o ator piauiense é incipiente, mas isso impede a formação e a capacitação de mão-de-obra? Se não preparamos a mão-de-obra, como enfrentar o mercado de trabalho, seja aqui ou lá fora? Feita essa observação, lá vem outra questão de fundo: a questão artistica não deve visar o mercado de trabalho. Arte é outra coisa, sim, concordo. Mas concordo, também, que o artista precisa viver de seu trabalho.
A colocação sobre o mercado de trabalho é que tem levado nosso artista de teatro ao impasse: ser o não ser ator? Assumo ou não assumo? A crueldade da dúvida é que tem levado verdadeiros talentos ao estaleiro, a desistência pura e simples. Aliás, os produtores teatrais do Piauí, sempre que descobrem um bom ator, se peguntam: quando é que ele vai trocar o palco por um salário minimo de balconista? Não que ser comerciário seja ruim, ou ganhar um salário também. Mas é que parece que o dinheiro que o ator piauiense ganha, ele não considera. E olhe que como produtor eu digo: o ator piauiense, formado e consciente, ganha dinheiro, e não lhe falta trabalho. Mas isso é preciso ser ator, investir-se do papel da representação, ser no sentido do devir e estar sempre antenado a procura de papel. O ator tem como função atuar, seja no palco, na tv, na publicidade ou no cinema, e, ainda, socialmente, isso significa investir-se da máscara de ator e não dizer simplesmente que é, e fugir na hora de atuar. Esconder no bairro onde mora, no trabalho que executa ou em cada esquina sua profissão. Ser ator, mesmo em Teresina, Piauí, Brasil, é uma profissão digna. Mas tem que encarar. Não é querer ser funcionáro público em primeiro lugar, ou vendedor de perfume, ou comerciário, é querer ser ator em primeiro lugar. Quantos médicos não são cantores, pianistas, atores? Eles se dizem artistas? Não, se dizem médicos. Agora nossos atores, e aqui não generalizo, nunca dizem que são atores, preferem dizer que são empregados na fundação tal, na secretaria tal, no supermercado tal, e tome irresponsabilizadade na hora do ensaio, por que não tem tempo. Por que aquele emprego lá é mais importante do que ser ator, do que seu sonho de vida. Triste realidade de nossos atores.
Bem, espero ter suscintado um debate que está me apaixanando muito. Mesmo por que nosso teatro, mesmo com todas as mazelas, continua em pleno desenvolvimento, e será seguramente a arte maior em pouco tempo.